Às vezes eu me pego julgando os mais jovens muito rigorosamente. Quando vou escolher uma pessoa com quem conversar, ou um blog para ler, eu me esquivo dos adolescentes de forma quase instintiva. É como se o fato da pessoa ter menos de 18 anos (às vezes menos que 21, dependendo do meu humor) fizesse dela uma boçal fútil e sem conteúdo, que assiste BBB, lê revistinhas adolescentes e sai por aí escrevendo sobre esses assuntos como se fossem as coisas mais importantes do mundo.
Eu confesso que sou injusta. Não nego. É fato que alguns jovens são dotados de muita cultura, e até sabedoria. Muitos deles têm mais conhecimento do que eu jamais tive em minha vida e são perfeitamente capazes de falar com sobriedade a respeito de quase qualquer coisa. Mas, onde eles estão?
Quando eu era adolescente, as pessoas me chamavam de “estranha“, de “esquisita“, ou até mesmo de “maluca“. Eu preferia passar o horário de recreio dentro da sala de aula, lendo ou escrevendo, do que descer três andares de escada para passar 20 minutos ouvindo aquele monte de crianças e adolescentes gritando e correndo no pátio da escola. Eu era diferente, e sabia disso. Mas ser diferente nunca me incomodou e raramente eu encontrava pessoas como eu, embora tentasse me entender com os outros. Aquelas conversas adolescentes sobre garotos me entretia por algum tempo, mas nunca me prendia a atenção, e logo eu estava andando pelos “grupos” novamente, procurando um que “falasse a minha língua“, mas nunca cheguei a encontrar.
Eu tinha os meus amigos, e nós não éramos muito convencionais. As brincadeiras de boneca não nos satisfaziam. Eles vinham à minha casa todo final de semana para brincar, e se aglomeravam à minha volta na sala enquanto eu contava histórias de terror e fazia de cada um deles um personagem. Eles se arrepiavam de medo e chegavam a ver os fantasmas e criaturas estranhas andando pela casa. Era assustador, e divertido.
Nós criávamos novos mundos, inventávamos histórias incríveis e depois cada um ia para a sua própria casa dormir, ou ao menos eles tentavam. Nem sempre era fácil dormir depois de uma história de terror, e suas mães me xingavam por isso. Quantas vezes meus amigos foram proibidos de brincar comigo, porque eu lhes provocava medo! Mas eles não obedeciam suas mães… Embora sentissem medo, saber que estavam vivendo uma fantasia quase real os deixava maravilhados. Todos nós gostávamos.
Então eu voltava para a escola durante a semana e tornava a ver as meninas falando sobre os meninos, os meninos falando sobre qualquer coisa que não fossem as meninas, e nenhum deles tinha uma história excitante de final de semana para contar. Que graça havia naquilo?
Os anos passaram e aqueles tempos deixaram marcas profundas na minha personalidade. Eu não consigo olhar para um grupo de adolescentes sem pensar nos meus colegas de sala de aula, que mal sabiam ler e viam numa balada o momento mais emocionante de suas vidas. E quando eu entro no blog de um adolescente e me deparo com um português medíocre e sem conteúdo, falando sobre coisas fúteis e superficiais, me pergunto: Onde estão os adolescentes que gostam de histórias? Será que eles entraram em extinção? Será que eu nunca terei o prazer de ver uma mocinha de 15 anos sentada num banco de praça lendo um bom livro, sem que seja apenas mais uma dessas futilidades que transbordam nas prateleiras das livrarias hoje em dia?
Eu espero que um dia possa ter essa honra, então saberei que estava enganada sobre os adolescentes, e a minha vida terá valido a pena. Até lá, os adolescentes vão ter que me perdoar.



