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Não chove há muito tempo. Nem sei quanto, só sei que é muito tempo. Outro dia, ameaçou chover. O céu ficou escuro e começou a trovejar. Meu cachorro, que está com 11 meses, ficou assustado. Desde que nasceu, ele nunca presenciou uma chuva de verdade. Isso é, no mínimo, assustador. Acabou não chovendo aquele dia, o que foi muito triste. Mas infelizmente – e por nossa culpa – teremos de nos acostumar.
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Ontem eu estava no ônibus, voltando para casa, e observando a paisagem ao longo da estrada – como faço sempre. Mas ao invés de me sentir bem com o vento batendo no meu rosto e as folhagens verdes e viçosas do lado de fora da janela, me senti muito mal. Os morros (que aqui não são amontoados de casebres e barracos, mas sim de pastos, plantações, ou vegetação densa), estavam todos cobertos de preto e marrom. O preto das cinzas dos capins sobre o chão castigado pelo fogo e o marrom das árvores completamente secas pelas chamas de queimadas incessantes. O ar, que costumava ser sempre agradável e puro, está pesado, difícil de ser respirado, repleto de fumaça. E apesar da dificuldade para respirar aquele ar, era impossível deixar a janela fechada, visto que o calor era insuportável – ainda é.
É primavera! Era para estar repleto de flores por todos os cantos, as árvores terem suas folhagens viçosas e cheias de vida, os dias serem frescos e agradáveis. Ao invés disso, temos fogo por todos os lados. O nascer da Lua Cheia, que antes enchia meu coração de esperança e felicidade, agora me entristece. Ela é vermelha, tingida pela fumaça das chamas no horizonte, carregada pela destruição que nós plantamos.
Não é culpa sua? Não é culpa minha? Não é culpa de ninguém? Ah sim… São causas naturais, dizem alguns por aí… O discurso novo é “O Planeta está mudando, como mudou várias vezes, em vários tempos. Foi assim na Era Glacial, foi assim no tempo do grande dilúvio, será assim novamente agora. Tudo o que podemos fazer e esperar e nos adaptar.”
Eu concordo em partes. Acho realmente que o Planeta sofre mudanças naturais. Mas todo mundo sabe que o Aquecimento Global não é uma causa natural e é o principal responsável pelas atuais mudanças no Planeta.
Não confundam as coisas. Não estou aqui para dar uma de santinha e dizer que não dependo do petróleo, que sou perfeitamente capaz de levar uma vida boa sem os luxos e lixos da vida moderna.
Sou inteligente o suficiente para entender e aceitar a minha parcela de culpa nisso tudo. Só não concordo com os milhões de pessoas reclamando o tempo todo.
Todos os dias me deparo com pessoas que se abanam com um pedaço de papel enquanto degustam um Fast Food qualquer e enchem o peito para dizer “É culpa do Aquecimento Global! Se as pessoas aprendessem a economizar, a cuidar da natureza e parar de abusar dos recursos naturais, o Planeta não estaria assim“. De fato! Mas o mais interessante é o tom arrogante com que soa essa frase, como se a própria pessoa a dizer não tivesse nada a ver com isso.
Ora, ora… Vamos parar de hipocrisia, né… Sendo grossa e baixa: Nós fudemos o planeta, agora ele fode a gente! E é bem feito!
Algumas pessoas se acham muito importantes. Elas dizem que os humanos são seres superiores, que “ganharam” a Terra como presente de um Deus qualquer. Elas acham que animais devem ser criados para serem usados a nosso bel prazer (ou benefício, que seja). Acreditam que somos mais importantes do que tudo o que existe, que somos o centro de todas as coisas, os verdadeiramente superiores (às vezes – apenas em alguns casos – não superiores apenas ao Deus em questão).
Não quero ofender ninguém… Mas se alguém se interessa pela minha sincera opinião, acho que somos o que há de pior. Somos os seres mais inferiores da Natureza, aquele vírus que todos os outros seres abominam e do qual tentam se livrar. Os outros seres, sejam eles animais, vegetais, ou minerais – qualquer coisa – são muito melhores e mais inteligentes do que nós.
Afinal, como disse um grande filósofo certa vez “A nossa vida não é mais importante para o Universo, do que a de uma ostra”, mas nós pensamos que sim…
Pobres e ingênuos que somos.
Vamos todos morrer! Seja por nós mesmos, pelas coisas que criamos, ou porque a nossa chama se extinguiu naturalmente. Mas vamos todos morrer, como todas as coisas nascem, crescem e morrem. Não somos diferentes, não somos especiais, não somos nada demais. Mas acreditamos que sim. Pobres e ingênuos que somos. Acreditando que somos especiais, superiores, destruímos tudo o que nos mantém vivos, e agora vamos apenas morrer mais rápido. Bem feito para nós!



