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 “Na falta de algo melhor…”

22 de abril de 2008 | Comments (2)

Em: Filmes + Papo-furado + Pseudo-Filosofia

“…inventei a minha liberdade.”

Porque toda vez que penso na frase que dá nome ao título, me vem a música do Engenheiros do Havaí na cabeça.

Ultimamente tenho pensado muito nisso. É sempre na falta de “coisas melhores” a se fazer, que fazemos coisas realmente boas! E na falta de algo melhor, aqui estou eu escrevendo o post de hoje. (não que ele seja realmente bom, mas me faz sentir bem :) )

E na falta de algo melhor, ontem eu assisti o filme que passou no SBT à tarde. Não lembro o nome direito, mas era a história de um menino e o seu cãozinho Skiper.

Não gosto desses filmes-clichê com animais. A história é sempre a mesma. Uma criança faz amizade com um cãozinho (macaquinho, coelhinho, porquinho…), vivem grandes aventuras juntos, são felizes, até que algo acontece com o animal, ele quase morre, e depois fica tudo bem. Final feliz, todos felizes, etc…

Mas esse em especial me chamou a atenção pela simplicidade da história. Não se tratava de um cão excepcionalmente inteligente, nem de uma aventura eletrizante. Era um menino comum, com um cãozinho comum, que se tornam amigos. Até acontecem uns lances meio tristes com o cachorro pra tentar fazer a gente chorar (aha, vocês não me pegaram nessa ;D), mas a história não termina como todas as outras, mostrando o menino e o seu cão felizes para sempre. O menino cresce, passa para a faculdade, vai embora de casa, o cão fica sozinho com os pais dele e, depois de algum tempo, morre de velhice (e talvez saudade).

Ok… Ninguém aqui deve estar entendendo o porquê dessa história ser tão significativa para mim. Vou explicar.

Quando eu era ainda bem pequena, meu tio comprou um sítio na roça. Lá, eu fiz amizade com uma cadelinha que abandonaram na estrada e ela passou a ficar por ali, perto do sítio, sempre com a gente. Até o dia que ela deu cria e meu tio trouxe um dos filhotinhos para mim. Era uma fêmea, e eu a batizei com o único nome de cachorro que conhecia na época: Lassie.

A partir de então, a Lassie se tornou meu braço direito. Não tinha um lugar que eu fosse sem que ela estivesse ao meu lado. Naquela época, eu morava na casa da minha madrinha, e nós vivíamos juntas. Dormíamos no mesmo quarto, íamos juntas ao mercado e eu só não a levava para a escola, porque não a deixariam entrar.

Uma cadelinha tão vira-lata quanto poderia ser, mas inteligente, fiel, carinhosa… Eu não ia ao banheiro sem que ela me fizesse companhia, sentada à porta esperando eu sair. Mas eu cresci e ela envelheceu.

Anos mais tarde, voltei para a casa dos meus pais, mas não tive coragem de levar ela comigo. Ela já não enxergava direito e tinha dificuldade para subir escadas. Fiquei com medo de que ela não suportasse a mudança de ambiente e de pessoas. Eu fui embora, e ela ficou.

Depois disso, a velhice pesou sobre ela. Aos poucos, foi se tornando mais fraca, mais cega, mais surda, até o ponto em que quase não saía da cama e mal conseguia comer. Felizmente, todas as pessoas da família sempre a amaram muito e cuidaram dela com todo carinho até seus últimos dias.

Eu não fiquei triste quando ela morreu. Tenho consciência de que o sofrimento dela com a artrose, e outras doenças da idade, era muito grande e foi melhor ela ter partido para não sofrer mais. O que ainda me pesa no coração, quase todos os dias, é o mesmo sentimento que pesava quando ela ainda era viva, e eu estava na casa dos meus pais: para ela, eu a abandonei.

Acho que foi por isso que o filme pareceu singular para mim. Porque no final, quando o menino vai embora para a faculdade, é exatamente isso que se passa com o cachorrinho dele…

Mas depois do filme…

Eu e Jeff assistindo a TV aberta e comentando que não aguentamos mais ouvir falar da morte daquela menina…

Menina de cinco anos morre vítima da dangue.

(algum jornal da Record)

Jeff: “Pronto! Agora vão acusar o mosquito, indiciar o mosquito, chamar os pais do mosquito para depor…”






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